sábado, 16 de janeiro de 2010

O que eu quero ser

Hoje eu tive um sonho muito estranho.
Tão estranho, e ao mesmo tempo tão bom, que deixou uma sensação de embaralhamento nas idéis e um gosto de decepção ao acordar.
Sonhei que eu era uma letra. Uma letra que se transformava em várias outras, que se transformavam em palavras, que se transformavam em parágrafos, que se se transformavam em textos. Sentia-me um deus.
Era leve como uma folha, afiado como uma lâmina, rápido como um pensamento, ameaçador como uma arma. Atirava pedidos de perdão e súplica, declarações de amor, de guerra e de imposto de renda. Cometia assassinatos, inocentava réus, partia corações e operava milagres.
Era capaz de penetrar em cada pessoa e lá ficar, desde seu nascimento até depois de sua morte. Também mudava de forma: podia ser escrito, falado, pensado, pintado, datilografado, codificado e decodificado.
Mais do que isso, apenas existia, no sentido do verbo "ser", no sentido contemplativo de Alberto Caeiro, e no sentido social de Karl Marx. "Ser" criador, "ser" criatura. Não precisava de mais nada, pois já era tudo.
Até que o real (como sempre cruel) me puxou de volta do abstrato, e me vi cercado de palavras.
Foi por isso que decidi escrever. Já que não posso ser essas palavras, vou aprisioná-las. Vou acorrentá-las a mim, e seremos felizes para sempre.

Um comentário:

Fernanda Sirotheau disse...

adorei, escreves muito bem (: